Poemas

de  Pedro Guilherme de Andrade
Solenidade
Funeral dos soldados
mortos em terras distantes
e trazidos para o país natal
em aviões de carga
Asséptico e verde cemitério,
nomes esculpidos em mármore branco
Generais perfilados,
medalhas reluzentes,
impecáveis fardas
Civis engravatados
muito bem trajados,
semblantes graves
Imponentes caixões enfeitados,
bandeira pátria e o símbolo do regimento
escondem dilacerados corpos
Solenes tiros de canhão,
promessas emocionadas,
mais soldados e mais dinheiro
Discursos empolados, irados,
ódio destilado
e a certeza do inimigo esmagado
Distante da multidão,
num cercado improvisado, bem arrumado
desconsoladas mães choram involuntários heróis
Indiferença

Crateras abertas,
ferros retorcidos, calcinados
carcaças de carros
Prédios destruídos,
plantações devastadas,
alimentos perdidos,
fábricas arrasadas
Cadáveres em abandono
Aves de rapina poluem o céu
em busca de alimento:
pele, ossos, carne

Crianças, jovens, velhos,
homens, mulheres, animais:
insepultos, anônimos, largados

Valas coletivas abertas
Amontoados corpos,
não mais humanos,apenas coisas
Cal, combustível,
corpos incinerados, cinzas

Epidemias evitadas,
gabam-se autoridades

Tecnologia

Indústria da guerra:
navios, tanques, aviões,
uniformes, mísseis, canhões

“Forjamos empregos”, dizem
e sempre criam novas armas,
armas malditas, alucinações

Pesquisa, alta tecnologia,
matar cada vez mais longe,
simplesmente apertando botões

 

Batalha


Solitário, arrasta-se o soldado
Por entre casas caídas,
farrapo ferido, 
olhar transtornado
na noite de breu.

Cidade arrasada,
companheiros mortos
desolação.

Desamparo, sangue, solidão

A guerra humilha o soldado
que  nem imaginava
porque estava naquela guerra

Sofrer, morrer sem perceber
que interesses existia
naquela guerra

Morreu sem saber
porque morreu
naquela guerra

Gandhi
Hindu, muçulmano,
cristão, budista, judeu?
Um e muitos

hinduísmo na base,
amor incondicional

Apontou caminhos
num século dilacerado
pródigo em utopistas

Senhores da verdade
que em nome de religiões
progresso, partidos,
ideias, raça, tecnologia
e da verdadeira democracia,
aquela infalível e bem guardada,
mataram, destruíram
e torturaram muito mais
do que em toda a história
da humanidade

Nem Mahatma queria ser,
apenas simples pioneiro,
singelo exemplo
em outro tipo de batalha,
onde cada um é responsável
por si e por seu irmão

Dar a outra face,
frase tão pouco entendida,
quase sempre ridicularizada,
achincalhada, menosprezada,
esquecida, conceito deturpado

Mas quem, no século XX
ofereceu o rosto
com tanta dignidade,
deixando que lhe batessem,
que lhe prendessem,
que lhe ofendessem?

E não se curvou  ao Império
em que o sol nunca se punha
Violência desnudada,
brutalidade flagrada
aos olhos do mundo 


Banalidade
A família na sala,
quieta, olhos na televisão,
prato na mão, antes da novela
Milhões de telespectadores
e o patrocínio de refrigerantes, cigarros,
revitalizantes, calmantes, aguardentes

E o noticiário internacional,
guerra eletrônica, ao vivo,
transmitida via satélite
Fumaça, cores, clarões,
correria, soldados, tensão,
incêndios, ruínas, sons

De repente, outro ambiente,
atores, novela, ficção

Aventura emocionante,
maquinas possantes,
fantasias alucinantes

A guerra parece que se foi...

 
Desterro

Tristes caminhos,
fuga e tormento,
milhares se vão
Pelas estradas, súplicas,
braços  erguidos,
gestos inúteis

Rostos assustados,
sonhos de paz,
restos de esperança

Autômatos, caminham
não importa o destino
Em desespero, segue a multidão
Arrastando poucos pertences,
esquálidas crianças
esqueletos ambulantes

Sem casa,
sem pátria,
sem pão

Mercado    
Sinistros mercadores
espalham pelos povos
a necessidade da guerra

Violentas ganâncias
nutrem-se do medo
e vicejam na insegurança.
Insanos insaciáveis
exacerbam perigos,
exploram nacionalismos, ufanismos

Armas de qualquer tipo
vendem com sigilo e discrição
para exércitos ou bandos
Aceitam ouro, euro, dólar,
petróleo, cocaína,
moedas universais
Não questionam a finalidade
nem o tamanho da devastação.
Sofrimento e morte fazem parte do negócio
Noturno
Noite amarela
esquálidos cavalos
retumbantes gritos
crepitante fogo
intermitentes esgares
vultos etéreos
esquartejados corpos
água escorre sem parar
insistentes batuques
rostos desfigurados
profusão de barbas
piratas antigos
festivais de amor
ladrões virtuais
janelas escuras
sombras brancas
púrpuras mulheres
mulheres barrigudas
destroços humanos
castelos enormes
dejetos, objetos
maremotos, terremotos
espíritos vagam
medo, pavor
gritos abafados
murmúrios de socorro
Sonho pesadelos
e a aurora nem desponta