domingo, 3 de agosto de 2014

Punição coletiva

RASHID KHALIDI - O ESTADO DE S. PAULO

Ação de Israel em Gaza não tem a ver com foguetes nem com o Hamas, mas com o controle definitivo do território, diz autor

Sem refúgio. Escola da ONU bombardeada no campo de Jabaliya
Três dias depois de iniciar a atual guerra contra Gaza, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, deu uma entrevista coletiva à imprensa em Tel-Aviv na qual disse, em hebraico, segundo o Times of Israel: “Acho que o povo israelense agora compreende o que sempre afirmei: não pode haver uma situação, em qualquer acordo, em que entreguemos o controle de segurança do território a oeste do Rio Jordão”.
Convém ouvir cuidadosamente quando Netanyahu fala ao povo israelense. O que está se passando hoje na Palestina não tem a ver de fato com o Hamas. Não tem a ver com foguetes. Não tem a ver com “escudos humanos”, ou terrorismo, ou túneis. É precisamente isso que Netanyahu está dizendo, e é isso que ele agora admite que “sempre” disse. Tem a ver com uma política israelense inabalável há décadas de negar autodeterminação, liberdade e soberania à Palestina.
O que Israel está fazendo em Gaza agora é uma punição coletiva. É punição pela recusa de Gaza em ser um gueto dócil. É punição pela audácia dos palestinos de se unificarem, e do Hamas e outras facções reagirem ao cerco de Israel e suas provocações com resistência, armada ou não, depois de Israel ter repetidamente reagido a protestos desarmados com força esmagadora. Apesar de anos de cessar-fogo e tréguas, o cerco de Gaza nunca foi levantado.
Como as palavras do próprio Netanyahu mostram, Israel não aceitará nada menos que a aquiescência dos palestinos a sua própria subordinação. Só aceitará um “Estado” palestino despojado de todos os atributos de um verdadeiro Estado: controle de segurança, fronteiras, espaço aéreo, limites marítimos, contiguidade e, portanto, soberania. A farsa de 23 anos do “processo de paz” mostrou que isso é tudo que Israel está oferecendo, com a plena aprovação de Washington. Sempre que os palestinos resistiram a esse destino patético (como qualquer nação faria), Israel os puniu por sua insolência. Isso não é novidade.
Punir os palestinos por existirem é uma história antiga. Era a política israelense antes de o Hamas e seus foguetes rudimentares serem o bicho-papão de Israel e antes de o país transformar Gaza em prisão a céu aberto e laboratório de armas. Em 1948, Israel matou milhares de inocentes e aterrorizou e desalojou outras centenas de milhares, em nome da criação de um Estado majoritariamente judaico numa terra que era então 65% árabe. Em 1967, desalojou centenas de milhares de palestinos novamente, ocupando territórios que, em grande parte, ainda controla, 47 anos depois.
Em 1982, no esforço para expulsar a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e extinguir o nacionalismo palestino, Israel invadiu o Líbano, matando 17 mil pessoas, na maioria civis. Desde fins dos anos 1980, quando os palestinos sob ocupação se revoltaram, principalmente atirando pedras e fazendo greve, Israel prendeu dezenas de milhares deles: mais de 750 mil pessoas cumpriram pena em prisões israelenses desde 1967, um número que representa 40% da população masculina adulta atual. Eles saíram com relatos de tortura, que são substanciados por grupos de direitos humanos como B’tselem. Durante a segunda intifada, que começou em 2000, Israel tornou a invadir a Cisjordânia (nunca a havia abandonado completamente). A ocupação e colonização de terra palestina continuou intensa durante todo o “processo de paz” dos anos 1990, e continua até hoje. E, no entanto, nos EUA, a discussão ignora esse contexto crucial e opressivo, e com muita frequência se limita à “autodefesa” israelense e à suposta responsabilidade dos palestinos pelo próprio sofrimento.
Nos últimos sete anos ou mais, Israel sitiou, atormentou e atacou regularmente a Faixa de Gaza. Os pretextos variam: os palestinos elegeram o Hamas; recusaram-se a ser dóceis; recusaram-se a reconhecer Israel; dispararam foguetes; construíram túneis; e assim por diante. Mas cada pretexto é uma pista falsa, porque a verdade sobre guetos - o que ocorre quando se encarcera 1,8 milhão de pessoas em 362 km², um terço da área da cidade de Nova York, sem controle de fronteiras, quase sem nenhum acesso ao mar para pescadores (3 dos 20 km permitidos pelos acordos de Oslo), sem modo real de entrar ou sair, e com drones zumbindo sobre a cabeça dia e noite - é que o gueto acabará por revidar. Isso valeu para Soweto e Belfast, e vale para Gaza. Podemos não gostar do Hamas ou de seus métodos, mas isso não é o mesmo que aceitar a proposição de que os palestinos devam aceitar mansamente a negação de seu direito de existir como um povo livre em sua pátria ancestral.
É precisamente por isso que o apoio dos EUA à política israelense atual é uma loucura. A paz foi alcançada na Irlanda do Norte e na África do Sul porque os EUA e o mundo perceberam que precisam exercer pressão sobre a parte mais forte, responsabilizando-a e pondo fim a sua impunidade. Irlanda do Norte e África do Sul estão longe de ser exemplos perfeitos, mas vale lembrar que, para alcançar um resultado justo, foi necessário que os EUA tratassem com grupos como o Exército Republicano Irlandês e o Congresso Nacional Africano, que estavam envolvidos em guerras de guerrilha e mesmo em terrorismo. Essa foi a única maneira de embarcar num caminho para uma verdadeira paz e reconciliação. O caso da Palestina não é fundamentalmente distinto.
Mas os EUA puseram o polegar na balança em favor do mais forte. Nessa visão de mundo surreal, quase parece que os israelenses foram ocupados pelos palestinos, e não o contrário. Nesse universo distorcido, os confinados na prisão a céu aberto estão sitiando uma potência nuclear com uma das forças militares mais sofisticadas do mundo.
Para nos afastarmos dessa irrealidade, os EUA precisam inverter suas políticas, ou abandonar a pretensão de serem um “intermediário honesto”. Se querem financiar e armar Israel e papagaiar seus argumentos que contrariam a razão e a lei internacional, que assim seja. Mas não deveriam reivindicar estatura moral e falar solenemente sobre paz. E não deveriam certamente insultar os palestinos dizendo que se importam com eles ou com seus filhos que hoje estão morrendo em Gaza. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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Rashid Khalidi, americano, é professor da Universidade Columbia e editor do Journal of Palestine Studies. Escreveu este artigo para a revista The New Yorker