quarta-feira, 2 de julho de 2014

Robert Boorstin: "A internet não mudou a política"

FLÁVIA TAVARES - revista Época                                                                                                 
                                                  
CAUTELOSO Boorstin, ex-diretor do Google. Ele não gosta de fazer previsões sobre internet. “Há 15 anos não havia  o Google...”  (Foto: Beto Barata/ÉPOCA)
 
Como assessor do governo de Bill Clinton (1993-2001) nas áreas de segurança nacional, comunicação e relações exteriores e, depois, como diretor de política pública do Google, Robert Boorstin explorou de dois ângulos diferentes o potencial da internet na política e no mercado. Agora consultor independente, Boorstin é reticente em relação aos efeitos da revolução digital na vida de políticos e eleitores. Recentemente, em Brasília, Boorstin deu uma palestra na Câmara dos Deputados. Nesta entrevista, ele trata de atenuar as expectativas em relação ao potencial político da internet. “Não acredito que a internet tenha mudado os objetivos da política, mas a forma como a conduzimos”, diz.
ÉPOCA – A internet mudou a política ou apenas reflete no mundo digital questões antigas do mundo analógico?
Robert Boorstin –
A internet mudou valores fundamentais e aquilo que queremos extrair da política ou só os processos? Vejo a internet como um instrumento, não como um fim. Mas um instrumento muito poderoso, talvez apenas comparável à imprensa escrita ou à televisão. Não acredito que a internet tenha mudado os objetivos da política, mas a forma como a conduzimos. Em dois vetores fundamentais. O primeiro é a escala. É possível alcançar milhões de pessoas. Em segundo lugar, está a velocidade. Um exemplo positivo é quando há um desastre natural e se consegue mobilizar a sociedade. No lado negativo, é comum vermos uma informação se propagar rapidamente como “notícia” para, com o tempo, aquilo se comprovar apenas uma fofoca. Na política, isso acontece com frequência. Agora, qualificaremos esses vetores. Hoje, apenas um terço da população mundial tem acesso à internet em sua plenitude. Estão fora bilhões de pessoas. Isso é perigoso.
ÉPOCA – Por quê?
Boorstin –
Porque a política real é também a participação real. Até que todos tenham acesso à rede, o que pode não estar tão distante, não se pode dizer que a internet realmente tenha mudado a política. No futuro, a internet poderá tornar – e tornará – a democracia direta mais factível. Haverá votações on-line. Quanto mais pessoas tiverem acesso à internet, mais vozes serão ouvidas. À medida que a sociedade e os políticos ouvirem mais vozes, é inevitável que eles mudem sua visão sobre o que as pessoas querem.
ÉPOCA – Esses bilhões de pessoas sem acesso à internet não estiveram sempre fora do processo político?
Boorstin –
Sim. Por isso, uma mudança estrutural na política global só acontecerá quando essas pessoas tiverem uma voz. A internet talvez seja a primeira oportunidade na história para que isso aconteça. Não quero ficar fazendo previsões. Isso não funciona muito bem nem com tecnologia nem com política. Lembre-se de que 15 anos atrás não tínhamos Google… De qualquer maneira, nunca resolveremos problemas profundos à distância, virtualmente.
ÉPOCA – Como assim?
Boorstin –
Imagine a crise da Irlanda do Norte, ou do Congo, ou do Sudão do Sul. As pessoas precisam conversar olho no olho, precisam ver quem morrerá se elas não pararem de fazer o que fazem. Alguém já disse que não há história que não tenha sido contada na Bíblia, em Shakespeare, na Odisseia, ou em Vidas paralelas, de Plutarco. A internet não mudou isso. Mas hoje as coisas se desenvolvem de forma diferente. Uma música como “Hap­py”, do Pharrell Williams (cantor americano), que é legal, mas nada espetacular, em poucos dias é compartilhada pelo mundo inteiro. Isso não é revolucionário. Por enquanto, é apenas um jeito de as pessoas se divertirem e se relacionarem.
"Com a internet, você injeta a mensagem na veia de uma parte do eleitorado"
ÉPOCA – Os políticos superestimam a importância da internet?
Boorstin –
As pessoas acreditam que, nos Estados Unidos, a internet é a coisa mais importante numa eleição. Não é verdade. Ao menos 80% do orçamento de propaganda ainda é gasto na televisão. Apenas de 3% a 6% na internet. A eficácia da internet ainda não foi determinada. O certo é que o tal microtargeting, ou segmentação do público-alvo, na internet é muito mais eficaz que na televisão. É a diferença entre uma mangueira e uma seringa. A televisão espirra a mensagem no eleitorado e acerta alguns alvos. Com a internet, você injeta direto na veia de uma parte do eleitorado: como mulheres interessadas no meio ambiente que tenham entre 18 e 34 anos. A propaganda na internet permite um foco antes impossível. Por isso, tende a crescer. A eleição nada mais é que uma venda de um produto – de um candidato ou de uma ideia. Na política como no comércio, a internet permite ver o que alguém quer consumir, quando, onde, com quem. Isso é valioso.
ÉPOCA – Algum político dominou a internet?
Boorstin –
O pioneiro e mais bem-sucedido até aqui foi o presidente (dos Estados Unidos, Barack) Obama. Vários estudos sobre a eleição de Obama mostraram que as razões do sucesso de sua estratégia na internet foram: a capacidade de rastrear eleitores e manter contato com eles; a habilidade de escolher temas específicos e de mandar mensagens diretamente a grupos que tinham esses interesses; a perspicácia de usar as redes sociais de uma maneira que desenvolvia um sentimento de comunidade entre os simpatizantes; a capacidade de mapear áreas geográficas; e a habilidade de pautar a cobertura da imprensa. Com esse conjunto, você tem uma “estratégia digital” real, usa a tecnologia não apenas para motivar cidadãos, mas para converter esses contatos on-line em votos.
ÉPOCA – Essa estratégia mudou o resultado da eleição?
Boorstin –
Qual era o objetivo? Eleger Obama e mudar o mundo, lindo. Isso é diferente do que era o objetivo de (Ronald) Reagan em 1980? Não. A diferença é que Reagan usou a televisão e isso não é mais suficiente. O problema da internet é a avalanche de informação e como fazer com que as pessoas se concentrem nas três frases que você postou.
ÉPOCA – Como filtrar a informação do ruído?
Boorstin –
Sendo perfeitamente honesto, não é possível filtrar. Com o tempo, as pessoas se treinarão a perceber a diferença, a partir dos erros cometidos.

ÉPOCA – A política ajuda nesse aprendizado ou tira proveito da falta de discernimento?
Boorstin –
Ambos. A internet é poderosa e pode ser também obscena. Mas não temos escolha, não podemos ignorá-la. Se você é um político, não pode fingir que a internet não está lá ou, pior, subestimá
ÉPOCA – É possível regular a internet?
Boorstin –
Há sempre uma distância entre o que diz a lei e a prática. Com o Marco Civil, o Brasil deu um enorme passo no sentido certo. As pessoas não percebem o avanço que ele representa. É uma inovação dizer que a tecnologia está muito à frente da lei. Há o paradoxo de tentar regular algo impossível de regular, e isso é algo com que nos debateremos para sempre. Há quem afirme que a internet é tão maravilhosa justamente porque nasceu sob o signo da liberdade e, por isso, o melhor é deixá-la em paz. Faz sentido. Ao mesmo tempo, não pode ser um espaço sem lei.
ÉPOCA – As empresas de internet, entre elas o Google, são acusadas de colaborar com a NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) na espionagem digital.
Boorstin –
Não sei o que aconteceu. Isso não passou por mim quando eu estava no Google. Acredito que as empresas de internet dormiram no ponto até perceber que as brechas eram invadidas pela NSA. Quando descobriram, foram rápidas em tentar interromper o vazamento de informações. Se as empresas sabiam que eram invadidas, creio que apenas poucas pessoas da área técnica sabiam, não executivos que pudessem tomar decisões políticas. Mas isso é apenas um palpite qualificado.
ÉPOCA – Não é estranho que uma decisão tão estratégica não passe pelos executivos da companhia?
Boorstin –
Sim. Mas, se a NSA tivesse dito às empresas o que pretendia fazer, elas não teriam permitido. As empresas de internet não são como as de telecomunicações, que eram estatais em quase todos os países e tendem a ser mais complacentes com os governos.
ÉPOCA – Como o senhor analisa a reação do governo brasileiro às evidências de que a NSA espionou a presidente Dilma Rousseff?
Boorstin –
A NSA foi estúpida ao grampear um telefone de um governante. A presidente Dilma foi uma boa política ao usar esse episódio em seu favor. E foi melhor ainda quando, na Net Mundial (conferência realizada em abril), em vez de ficar agressiva, falou que todos têm a chance de contribuir para a melhoria da internet e que isso não deve ser um sistema comandado apenas por governos. Quando você vê o resultado dessa conferência, dá para notar que ela agiu como alguém que tem visão ampla e de longo prazo.