quarta-feira, 9 de julho de 2014

Quando a saúde chega às comunidades mais remotas

 
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Pernambuco, Brasil, 8 de julho de 2014 (OPAS/OMS) - Fazia quatro anos que a Unidade de Saúde da Família São Domingo, no município pernambucano de Brejo da Madre de Deus, não tinha médico. Quando o dinheiro e o tempo permitiam, a agricultora Maria do Carmo Berlamino Noé viajava até a policlínica municipal para controlar sua pressão arterial e se consultar em caso de febre alta ou outros problemas de saúde que um profissional poderia ter resolvido no posto de saúde perto de sua casa. Mas os médicos quase não vinham a este pântano a 202 quilômetros de Recife, a capital do estado de Pernambuco. Agora, porém, o acesso ao atendimento médico está mudando no Brejo, assim como em 700 outros dos municípios mais empobrecidos e distantes do Brasil, desde que médicos estrangeiros começaram a chegar para cobrir o déficit de profissionais, no marco do programa Mais Médicos.

“Antes não era bom, não: faltava médico, faltava medicamentos, tinha que ir muito longe para ver o médico. Agora tudo mudou”, disse Maria, antes de ser atendida pela médica cubana Teresa Rosales Fonseca.
Teresa chegou ao Brasil em 1º de outubro de 2013, junto com seu marido, o especialista em medicina familiar integral Alberto Vicente Osorio Douglas. Durante seus primeiros 21 dias no Brasil, o casal fez aulas de português e recebeu informações sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), que garante o acesso gratuito aos serviços de saúde para toda a população.

Teresa e Alberto são dois dos cerca de 700 profissionais de saúde que estão atuando em Pernambuco no marco do programa Mais Médicos e que já atenderam mais de 1,7 milhões de pessoas.

Segundo o secretário estadual da Saúde, Antonio Carlos Figueira, “[o Programa] Mais Médicos teve grande acolhida, tanto nas grandes cidades como na periferia”. Atualmente, mais de 14 mil médicos estrangeiros, a maioria cubanos, integram o programa. Seus serviços já chegam a 48,6 milhões de pessoas.

Fechando a brecha entre a população e a atenção

“Pensávamos que a aceitação seria muito difícil, mas foi tudo diferente e inesperado”, contou Teresa. Quando ela e seu esposo chegaram ao Brejo, surpreendeu-lhes como os idosos “se ajoelhavam e agradeciam a Deus pela chegada de um médico à comunidade”.

Esta médica cubana, formada em 1990 pelo Instituto Superior de Medicina de Cuba, diz que as doenças predominantes na comunidade são hipertensão e diabetes. “Todas são preveníveis, mas passaram muito tempo sozinhos, sem médico, e, talvez, sem muita informação”. Teresa afirmou que a verdadeira medicina é a que chega antes da doença, “a que trabalha na prevenção e promoção da saúde”.

Alberto, que conheceu a esposa durante uma missão médica semelhante na Venezuela, puxa uma cadeira para atender seu primeiro paciente do dia. “Sentamos o paciente de um lado, sempre muito perto de nós, e o examinamos”, descreveu ele sobre a maneira de trabalho que os caracteriza, e assegurou sentir-se “felizmente impactado” cada vez que alguém sai da consulta sorrindo.
 
Solaya trouxe sua filha à unidade de saúde onde atende “o doutor Alberto”, como o chama a equipe do Posto de Saúde III. “Antes, a gente vinha e não tinha médico. A gente tentava marcar consulta e nos mandavam para a policlínica, que é mais longe”, disse a dona de casa. Depois da consulta, ela concluiu: “Gostei muito. Estou feliz”.

Para Osmani Maria Da Silva, uma das agentes de saúde da unidade, “um médico que trabalha oito horas é um sonho”. A enfermeira Luciana destacou que agora está menos sobrecarregada de trabalho e que os pacientes se consultam mais. “Antes, qualquer caso de febre precisava ser encaminhado, e agora não. O médico está contribuindo muito para o posto de saúde, e apesar de ser cubano fala muito bem português; a população gosta muito dele e não tem problemas para entendê-lo”, garantiu ela.

Alberto e Teresa atendem cerca de 500 pacientes por mês cada um. “Isso desafoga o atendimento na policlínica e traz tranquilidade para os pacientes”, disse a secretária municipal de Saúde de Brejo, Lucia de Fátima Santos.

Atendimento gratuito para toda a população

A necessidade de um programa como o Mais Médicos aponta para a resposta imediata a um problema que o Brasil compartilha com outros países: a força de trabalho de saúde do país não está distribuída geograficamente de maneira a satisfazer as necessidades da população, assinalou Alberto Kleiman, chefe da Assessoria Internacional do Ministério da Saúde do Brasil.

Para o Ministro da Saúde de Cuba, Roberto Morales Ojeda, o programa está contribuindo para reduzir as desigualdades ao aproximar a saúde das populações mais pobres. Segundo Morales Ojeda, quando os profissionais da saúde cubanos saem em missão ao exterior, o fazem para “colaborar e pagar sua dívida com a humanidade”. Cuba tem uma das maiores proporções de médicos por habitantes do mundo.
Um acordo de cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o escritório regional da OMS para as Américas, facilita a mobilização internacional dos médicos cubanos. Com a finalidade de compilar lições aprendidas desta experiência para o Brasil, assim como para outros países que busquem avançar em direção à cobertura universal, a OPAS está estudando o impacto que este programa terá no sistema de saúde e na saúde da população.

“Mais Médicos é um dos principais esforços do Brasil para avançar na cobertura universal em saúde para a população, na medida em que dá uma resposta ao mandato constitucional de um Sistema Universal de Saúde que preste atendimento público e gratuito para toda a população, ao mesmo tempo em que significa um importante passo para aumentar os investimento de recursos públicos em saúde”, afirmou o representante da OPAS/OMS no Brasil, Joaquín Molina.

A cooperação cubana no mundo


Em 1960, Cuba iniciou sua cooperação internacional em saúde prestando ajuda solidária ao Chile, e a consolidou em 1963 com a primeira brigada médica internacionalista, enviada à Argélia.

Cerca de 45.000 profissionais de saúde—dos quais aproximadamente 20.000 são médicos—colaboram em mais de 60 países da América Latina, África, Ásia, Europa (Portugal) e Oceania.

Nos últimos 54 anos, Cuba formou mais de 120.000 médicos, 70.000 enfermeiras, 18.000 dentistas e mais de 60.000 tecnólogos em saúde. Também formou mais de 25.000 estudantes estrangeiros de 124 países.

Por outro lado, mais de 3.000 professores cubanos formam recursos humanos em saúde em outros países, inclusive Angola, Bolívia, Eritreia, Gâmbia, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Tanzânia, Timor Leste e Venezuela.

Video: Programa "Mais Médicos" - Saúde Para as Comunidades Mais Vulneráveis