segunda-feira, 14 de julho de 2014

Novos movimentos sociais tendem a se manter apartidários


A tendência dos novos movimentos sociais apartidários, que nasceram da desesperança com os meios tradicionais de representação política, é que continuem fora do sistema político, não se ligando a partido algum. Essa é a análise do filósofo e professor de políticas públicas da USP, Pablo Ortellado, que acompanha a atuação de coletivos que questionam os sistemas econômicos e políticos bem antes de junho de 2013.

Brasilianas

 

Segundo Ortellado, os movimentos apartidários estão sendo gerados desde 1990, e não são ligados aos movimentos sociais dos anos 70 e 80 que originaram o Partido dos Trabalhadores (PT). Quando fundado, em 1980, o PT procurou renovar “de forma profunda” o conceito de participação política, “nasceu como uma espécie de federação dos movimentos sociais e tentou reverter a lógica pela qual partido e movimentos se ligavam. Esse experimento chegou ao limite hoje”, explicou o professor durante sua participação no programa de debates Brasilianas.org, na TV Brasil.
 
Com o uso da internet os movimentos sociais ganharam força e rapidez para organizar protestos pressionando os políticos, assim como foram os atos de junho de 2013, quando o movimento Passe Livre levou milhões de pessoas às ruas, em várias cidades do país, para exigir a redução das passagens de ônibus. O mesmo ocorreu mais recentemente na cidade do Rio de Janeiro, quando o movimento de professores reunidos pelo aumento salarial arrastou milhares de pessoas às ruas, que não eram ligadas aos sindicatos da categoria.
 
Essa nova forma de articulação e pressão dos movimentos sociais está obrigando os cientistas políticos a estudarem formas do velho sistema político ser alterado para responder de modo mais célere a pressão popular das ruas. Um deles é Antonio Flavio Testa, que acompanha os trabalhos do Senado há pelo menos 30 anos. Segundo ele existem várias propostas no Congresso de reforma política, entretanto elas são barradas pelo que o professor Testa chamou de “problemas de modelo mental” da burocracia institucional dos poderes legislativo e executivo.
 
“Se houver [em muitas questões] vontade política [no Congresso e na presidência] se vota. É só olhar [o uso] das medidas provisórias. Um exemplo recente é a medida provisória da seca, aprovada a toque de caixa por conta da pressão da maior bancada do parlamento, que é a do Nordeste. Mas depois, na hora da regulamentação, foi barrada pela burocracia do Banco do Nordeste e por outros problemas legais e jurídicos que não deram condições nenhuma para que aqueles penalizados pela seca pudessem ter seus processos renegociados”, completou Testa.
 
O cientista político acredita que a saída para melhorar o sistema político brasileiro, reduzindo as tensões entre os movimentos sociais e os representantes políticos, está na revisão do pacto federativo. No modelo atual os municípios possuem pouco poder de decisão e acesso aos recursos para dar conta dos seus problemas sociais.
 
“Os municípios estão totalmente afastados do poder decisório central. Os governadores nem sempre tem interesses com seus prefeitos. Há uma discussão enorme e tudo isso desemboca no Congresso. E é claro que a imagem que mais sofre é a do parlamento”, ponderou.
 
Não está certo como o sistema político atual irá se reconfigurar nas próximas décadas para dar conta da crescente pressão popular, cada vez melhor organizada graças às tecnologias. Ortellado compreende que o cenário aponta para a coexistência entre os novos movimentos sociais e o sistema de representação política. Este último, cada vez mais “testado e empurrado por novas formas de participação política de mobilização direta”, completou.
 
A Constituição Federal de 1988 prevê mecanismos de participação social mais direta, como os plebiscitos e referendos, mas para o professor titular de Ética e Filosofia do Departamento de Filosofia da USP, Milton Meira, são pífios “em relação ao que pode se fazer em uma nova forma de, sobretudo, criar responsabilidade política".
 
A pulverização de diversos movimentos sociais da nova sociedade, movida pelas tecnologias e redes sociais, apresenta problemas para o tipo de organização política que deverá acontecer à frente para a concretização de políticas públicas. Portanto, o professor compreende que ainda estamos em um processo onde é necessário reinventar o exercício do poder público muito mais pela questão da responsabilidade política individual.
 
“Hoje o cidadão é um puro expectador da política, mas ele quer participar e não vê como fazer isso. O grande desafio é como transformar essa necessidade de participação com o uso efetivo de um poder que venha do cidadão e não só do representante”, observou.
 
A internet e as novas articulações sociais
 
O professor de políticas públicas Pablo Ortellado discorda da teoria de que a internet foi a responsável pelo surgimento dos novos movimentos sociais. “[Na verdade], foram as tecnologias que foram moldadas por esses movimentos, do que os movimentos são frutos dessas tecnologias”,. Ele relembrou que as redes sociais, ou mídias participativas, nasceram ou dos movimentos sociais ou da academia. “Google, Facebook vieram da academia, enquanto Twitter, Flicker e Youtube vieram de movimentos sociais”.
 
Ortellado explicou, ainda, que a forma de atuação dos novos movimentos sociais é bastante diferente das instituições comuns. “As instituições, por definição, [mantêm] uma relação social que se reproduz no tempo, e os movimentos sociais, esses novos, tem características próprias, são coalizões ad hoc. Eles surgem para enfrentar determinados problemas. Podem ser vitoriosos ou podem ser derrotados. Eles se reconfiguram. [Assim], você tem uma base de ativismo difuso na sociedade que vai se reorganizando a medida que os problemas surgem”, concluiu.

Link original da matéria
http://jornalggn.com.br/noticia/novos-movimentos-sociais-tendem-a-se-manter-apartidários