quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Não há lugar seguro em Gaza" – a vida debaixo de bombas

Anistia Internacional

Este é um relato do cotidiano em Gaza, o testemunho de um defensor de direitos humanos, sob o zumbido constante dos mísseis e a pressão de fazer chegar ao mundo as histórias e as fotografias dos bombardeios incessantes que deixam uma população sem acesso a comida, nem água potável nem energia, e com as vidas em risco a toda a hora.

"Esta manhã enquanto escovava os dentes, ouvi o zumbido familiar de um drone circulando acima de nosso prédio. Ignorei o som. Drones circulam o tempo todo; nunca se sabe se é apenas vigilância ou um lançamento iminente de um míssil. A incerteza nos faz sentir desamparados. O que fazer?


Cinco minutos depois, um míssil disparado do que parecia um avião de caça F-16 atingiu as proximidades. O estrondo fez as crianças correrem para o meu lado. Amontoaram-se no banheiro, à procura de apoio e segurança. Estavam assustadas e pálidas, com os olhos vermelhos por dormirem pouco nos últimos dias. Costumo manter a cabeça fria, dizem que tenho nervos de aço, de modo que apenas sorri para as crianças - ainda segurando a minha escova entre os dentes. O alívio que sentiram ao me ver sorrir fez com que caíssem na gargalhada; é uma dessas reações absurdas que se tem sob estresse extremo.

Tento manter as coisas o mais normal possível para as crianças; não falamos sobre a guerra e as mortes o tempo todo. Tomamos precauções razoáveis, mas não exageramos e tentamos evitar espalhar o pânico. Não gritamos "Abaixa, abaixa!" a cada vez que ouvimos um zumbido de drone.

Minha casa é relativamente segura, porque conheço os vizinhos no prédio e nas redondezas, e sei que nenhum poderia ser um alvo. No entanto, não há lugar realmente seguro em Gaza. A vida é perigosa. É a guerra. Confiamos em Deus e cuidamos das crianças.

Tento ficar longe das áreas de combate; de qualquer forma, o exército israelense as transformaram em zonas proibidas. Qualquer veículo corre risco de ser atacado. Ainda outro dia um ataque de drones destruiu uma ambulância visivelmente identificada.

É quando eu estou do lado de fora, tirando fotos e entrevistando as pessoas que vivem nas áreas alvejadas, que corro o maior risco. O perigo é quando você sente que qualquer casa onde se esteja, pode ser o próximo alvo. Mas acredito que o meu trabalho é importante - independentemente do perigo; é essencial que a verdade seja divulgada.

Na semana passada, o caso da família Abu Jame, no leste em Khan Yunis, me abalou profundamente. Vinte e cinco pessoas de uma família haviam sido dizimadas durante um ataque aéreo israelense, quando estavam comendo Iftar, a refeição da noite para quebrar o jejum do Ramadã. Fui ao local na manhã seguinte, poucas horas depois da explosão. Estavam retirando os corpos a noite toda. Muitas crianças. Enquanto eu estava lá, outro míssil atingiu as proximidades.

No momento, 28 pessoas vivem em minha casa. Meus irmãos vivem em Salatin, no norte da Faixa de Gaza, onde acontece a invasão terrestre israelense. Meus três irmãos com suas famílias de cerca de seis ou sete filhos cada e meus filhos estão todos juntos sob o mesmo teto agora. Deixei todos ficarem comigo; não se pode recusar quando há vidas em jogo.

A invasão terrestre israelense tornou impossível trazer comida das áreas agrícolas do norte para a Cidade de Gaza. Do sul, a estrada principal Salah al-Din, que liga toda a Faixa de Gaza, é muito exposta e sofre ataques frequentes de drones. No momento, apenas ambulâncias e alguns veículos humanitários a utilizam, e ainda assim sob grande risco.

O único mercado que ainda está funcionando é o do campo de refugiados al-Shati, que abre à noite e fica muito lotado. Os donos de barracas arriscam suas vidas para obter verduras frescas. É uma área densa e se um F-16 a bombardear, o acampamento inteiro se tornaria uma cratera. As poucas lojas que permanecem abertas esgotaram o estoque.

Temos energia elétrica por umas quatro a seis horas por dia, em horários diferentes. Quando a eletricidade está ligada, nos apressamos a carregar os telefones celulares. Um gerador de energia elétrica de segunda mão custa 1.400 shekels [equivalente a cerca de U$ 400 ou  R$ 890], de modo que nem todos tem como pagar. Sem energia, temos de bombear a água para as caixas d'água no telhado - e isso é só para ter água nas torneiras para lavar. Temos que comprar água limpa para cozinhar e beber

Tenho uma mesa com tudo o que preciso para trabalhar: computadores, carregadores, internet, câmeras... mas não eletricidade. Acabei de consertar o meu velho gerador a diesel e consegui combustível hoje. Esperemos que esta noite funcione. Eu realmente preciso dele, para enviar os testemunhos ao mundo e as fotos que juntei. Estou aflito para levar as matérias para fora de Gaza, portanto é frustrante quando falta luz."

http://anistia.org.br/direitos-humanos/blog/não-há-lugar-seguro-em-gaza-–-vida-debaixo-de-bombas-2014-07-29