sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morre o escritor João Ubaldo Ribeiro

Escritor morreu aos 73 anos no Rio de Janeiro

RIO - O escritor João Ubaldo Ribeiro morreu esta madrugada aos 73 anos. Autor consagrado de obras como Viva o Povo Brasileiro, ele sofreu uma embolia pulmonar no apartamento em que morava com a mulher, na zona sul do Rio.

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), em que ocupava a cadeira 34, Ribeiro era colunista do Estado e de O Globo. Além de Viva o Povo Brasileiro, o escritor se notabilizou por clássicos como Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto.
O corpo será levado para a sede da ABL, onde ocorrerá o velório, a partir das 13 horas. Baiano que passou a infância e adolescência na Ilha de Itaparica, cenário de alguns de seus principais trabalhos e tema constante em suas colunas dominicais, Ribeiro vivia no Rio, entre idas e vindas, desde os anos 70 do século passado. Ele deixa quatro filhos.
O presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavalcanti, determinou o cumprimento de luto por três dias pela morte do acadêmico João Ubaldo Ribeiro. A bandeira da ABL ficará hasteada a meio mastro. “É uma grande perda para a Academia, para o romance e o jornalismo nacionais . João Ubaldo Ribeiro deixa uma obra de excelência. Estamos todos muito chocados com a notícia”, afirmou. O corpo de Ribeiro será velado no Salão do Poetas Românticos.
O acadêmico Domício Proença Filho disse há pouco que a família de João Ubaldo Ribeiro aguardará a chegada da filha dele, Manuela, que mora na Alemanha, para realizar o enterro do escritor. A chegada dela está prevista para as 5h deste sábado, 19, e possivelmente o sepultamento, no mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL), será ainda pela manhã.
Proença contou que Ubaldo não frequentava ativamente a Academia. “Quando vinha, era uma alegria, uma festa. Vamos sentir muita saudade daquela voz de barítono”, brincou.
“Ubaldo era um erudito. Tinha uma preocupação muito grande com a justiça social e a realidade do Brasil. Era um escritor voltado para a preocupação com a língua portuguesa do Brasil. Mostrava o que nós somos e como falamos. Todos os seus personagens devem estar se sentindo órfãos hoje”, disse.
Encontro. O letrista Abel Silva contou ter estado no último domingo com João Ubaldo Ribeiro no bar “Tio Sam”, no Leblon, onde o imortal da ABL assistiu à final da Copa do Mundo, torcendo pela Alemanha. “Ele tinha um neto alemão, filho do Bento Ribeiro. No domingo, brincou muito sobre como o neto chorava em português e alemão, estava muito bem e feliz”, contou Abel.
“Toda vez que eu chegava no ‘Tio Sam’, ele dizia: ‘Vou fazer uma coisa que ele (Abel) detesta’, e começava a cantar: ‘Só uma palavra me devora...’. ‘Ele é o autor disso’, dizia, apontando para mim. E eu dizia para ele que não detestava, claro, adorava tudo que vinha desse meu grande amigo”, contou o letrista. “Perdemos um extraordinário brasileiro. Algumas pessoas são insubstituíveis, sim. João Ubaldo era uma delas”.
Para Abel Silva, não há mais nenhum escritor como João Ubaldo Ribeiro no Brasil. “Ele vem de uma linhagem de escritores brasileiros ligados à tradição e ao conhecimento da fala e da mitologia popular. Herança popular acrescentada de uma cultura sofisticadíssima de um tradutor de Shakespeare, profundo conhecedor da literatura brasileira. E, com tudo isso, era também muito modesto. Era poliglota e jamais o vi usar expressões em inglês ou alemão, por exemplo, línguas nas quais era fluente”.
“Foi uma das melhores pessoas que conheci na vida”, disse o letrista. “João Ubaldo integrava a famosa turma da Cobal do Leblon, num botequim que se chamava Arataca, que ficou conhecido como o local do Tom Jobim. Mas o João Ubaldo também fazia parte daquela confraria. Seus causos, a alegria e inteligência dele, tudo aparecia muito claramente, o tempo todo”. Para Abel Silva, João Ubaldo Ribeiro era um “brasileiro absoluto, inclusive na aparência. Ele dizia que a cara dele era errada em todo lugar que ia. Fosse para os EUA, parecia árabe; fosse para a Palestina, parecia brasileiro”.
(Colaboraram Roberta Pennafort e Clarissa Thomé).