terça-feira, 1 de julho de 2014

FIASCO HUNO

Na coluna de Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".           
 

Estratégia da guerra e da pilhagem, seguida pelo governo dos EUA, não é compatível com século XXI

Marcelo Zero (*)
 
Não, não é a Copa. A Copa vai muito bem, obrigado. O Brasil está realizando a melhor Copa do Mundo da história, segundo publicações estrangeiras.
O que não vai bem é a política externa dos EUA. Sempre renovando a sua tradição de truculência e estultice, ela semeia caos e destruição por onde passa. Parece um novo Átila.
Veja-se o caso do Iraque. Em 2003, após mentir descaradamente para o mundo e sua própria população, alegando que Saddam Hussein tinha armas de destruição de massa e representava um “grave perigo” para seus vizinhos, os EUA invadiram o país que tem a terceira maior reserva de petróleo do mundo.
Quase 2 trilhões de dólares e mais de 500.000 mortos depois, os jihadistas do ISIS (Islamic State of Iraq and Syria {ou Levante}- Estado Islâmico do Iraque e da Síria) estão a apenas 60 quilômetros de Bagdá, após terem dominado boa parte do Oeste e do Norte do país. 
O governo iraquiano, de maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Al-Maliki, está em pânico com o avanço incontido dos radicais sunitas. Já pediram até “apoio aéreo urgente” aos EUA, que reluta agora em fazer intervenções mais incisivas.
O pânico é justificado. O ISIS, que pretende criar o califado de todo o Levante (Palestina, Líbano, Jordânia, Síria e Iraque), é ainda mais radical que a Al-Qaeda, com a qual disputa a hegemonia dos grupos islâmicos rebeldes da região.  Ele pretende implantar as mais duras leis islâmicas e, entre suas táticas, inclui a execução sumária de xiitas e de quaisquer inimigos. Também não se furta em divulgar essas execuções na internet e nas redes sociais, como forma de infundir o terror.
O governo central tem domínio efetivo somente de Bagdá e do sul do país, de maioria xiita. O resto do país está sob o domínio do ISIS ou é terra de ninguém, à exceção do extremo norte, onde há, na prática, um Estado curdo. O Estado iraquiano está totalmente esfacelado.
A imprensa ocidental, em suas reportagens e análises, atribui esse descalabro fundamentalmente ao governo de Al-Maliki, que não soube ou não quis implantar um processo de conciliação nacional, que agregasse xiitas, sunitas e os remanescentes do governo de Saddam Hussein.
É fato que o governo de Al-Maliki é inepto e autoritário. Mas isso é somente uma parte da história. O Iraque esfacelado é, na realidade, um resultado direto da política dos EUA e dos seus aliados na região.
O fortalecimento e o crescimento do ISIS, que ocupa o Iraque, ocorreram no contexto da tentativa dos EUA e de seus aliados de derrubar o regime Al-Assad, na Síria. O ISIS, bem como outros grupos radicais islâmicos, como o Jabhat al-Nusra (JN), o ramo local da Al-Qaeda, teriam recebido apoio financeiro e armas, entre outros, da Arábia Saudita e do Qatar, grandes aliados dos EUA na região, com o objetivo de desestabilizar Assad, aliado do Irã e historicamente apoiado pela Rússia, que lá tem a sua base naval no Mediterrâneo.
Nessa tentativa, submergiram a Síria numa sangrenta guerra civil, que já provocou 160 mil mortos, 6,5 milhões de refugiados internos, 2,5 milhões de refugiados externos e, na prática, a divisão territorial do país.
Capitalizado e armado, o ISIS conseguiu ainda cerca de US$ 500 milhões pilhando bancos na Síria. Também conseguiu armamentos mais pesados, capturando despojos de guerra.
Com a estabilização das posições territoriais na guerra da Síria, o ISIS passou a investir na expansão de seu domínio no Iraque, atraindo, inclusive, antigos apoiadores do regime de Saddam Hussein e grupos radicais islâmicos, e aproveitando-se da fragilidade do governo de Al-Maliki.
Portanto, o atual caos iraquiano e sírio, e a ascensão de grupos extremamente radicais, como o ISIS, resultam, em boa parte, da política externa norte-americana e da ação de seus aliados europeus e regionais na área.
Evidentemente, essa ação desastrada na Síria e no Iraque tem antecedentes. Na década de 1980, os EUA apoiaram os mujahedin em sua luta no Afeganistão contra o governo local apoiado pela então União Soviética. Mais tarde, esses grupos islâmicos constituíram a base dos Talibãs, que dominaram o país antes da intervenção norte-americana.
Hoje, quase 13 anos após a intervenção dos EUA e aliados, o Afeganistão, assim como o Iraque e a Síria, também é uma nação esfacelada. Há cerca de 600 mil refugiados internos e 1,6 milhão de afegãos refugiados no exterior. Somente em 2013 morreram cerca de 3.000 afegãos nos conflitos internos, a maioria civis inocentes, incluindo crianças. O Talibã voltou a atuar em amplas áreas do país, inclusive na capital, Cabul. A produção de heroína e ópio quadruplicou. O pior, contudo, é que não há propriamente um Estado nacional afegão. O país continua a ser dominado por grupos tribais e os antigos “senhores da guerra”. O seu presidente, Hamid Karzai, é, na prática, uma espécie prefeito de Cabul. E, em termos socioeconômicos, o Afeganistão continua a ser um dos países mais pobres do mundo.
O mesmo padrão de intervenção desastrada, desta vez com a sanção da ONU, ocorreu recentemente na Líbia. A derrubada de Kadafi submergiu o país num caos dominado por várias milícias que não obedecem ao fraco e corrupto governo nacional. Há inúmeras denúncias de graves violações de direitos humanos, que fariam corar o próprio Kadafi. A Líbia, no seu caos político e administrativo, também se tornou uma fornecedora de armas para vários conflitos internacionais. Diga-se de passagem, foi da Líbia, via Qatar, que vieram muitas das armas utilizadas pelos grupos islâmicos radicais que combatem na Síria, inclusive o ISIS.
Há, enfim, uma débâcle geral que se segue a essas “intervenções humanitárias”. Hoje, o governo norte-americano não consegue nem mais convencer a sua própria população do acerto de suas ações. Recente pesquisa de opinião feita pelo jornal USA Today mostra que somente 37% da população dos EUA acham que as intervenções no Iraque e no Afeganistão cumpriram seus objetivos. E não há grandes diferenças de opinião entre Republicanos e Democratas a esse respeito. Todos reconhecem o inegável fracasso.
Os Republicanos, é claro, agora culpam Obama pelos descalabros. Mas, a bem da verdade, Obama está apenas lidando (mal) com os destroços de uma política míope e intervencionista criada fundamentalmente ao longo de governos republicanos.
Trata-se de uma política que, em nome da “defesa da democracia”, destrói Estados nacionais e quaisquer perspectivas de construir autênticas democracias. Trata-se também de uma política que, em nome do “combate ao terrorismo”, insufla e fortalece grupos extremamente radicais e intolerantes.
Além disso, é uma política que mata. Que não protege quem deveria proteger.
Diziam os antigos que, por onde Átila e seu cavalo passavam, não nascia mais a grama. Hoje, pode-se dizer que, por onde passa essa política externa intervencionista e militarista dos EUA e seus aliados, não nascem democracias e Estados viáveis. E morre muita gente.
Os hunos não conheciam outro caminho para a prosperidade que a guerra e a pilhagem. Os EUA bem que podiam fazer melhor.
 
Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor legislativo do Partido dos Trabalhadores