quarta-feira, 9 de julho de 2014

A catástrofe é mais embaixo …

José Cruz - UOL
 
A derrota do time de Felipão sintetiza a gestão do nosso esporte. Agora, antes de culpar o fracasso de nossos “craques” ou repensar uma “nova Seleção Brasileira” é preciso analisar o nosso modelo da gestão esportiva, que passa, obrigatoriamente, por todas as modalidades. O problema está aí!
Esse modelo foi implantado com boa fé em 2003, quando ganhamos um Ministério do Esporte. Mas veio a administração política e, claro, a fartura dos recursos financeiros sem limite e sem controle. Os ex-ministros Agnelo Queiroz e Orlando Silva também são responsáveis por ajudarem a construir esse modelo fracassado.
Poucos sabem, mas clubes de futebol, também financiados por patrocínio estatal, são os que mais captam recursos na Lei de Incentivo ao Esporte. E porque a indignação? Porque é dinheiro público financiando a iniciativa privada, o enriquecimento de empresários e espertos, que vendem para o exterior talentos formados com essa verba, que deveria ser aplicada prioritariamente em projetos sócio-educacionais-esportivos.
Mais:
O  futebol é uma atividade altamente corrupta. É uma lavanderia a céu aberto, revelou um relatório homologado pela Organização das Nações Unidas. Estão aí os livros, agora com fartura editorial, mergulhando nesse submundo, onde o Estado Brasileiro está intimamente metido.
Há quatro anos, o escocês Andrew Jennings já revelava sobre a fraude dos ingressos na Copa do Mundo. O escândalo que vemos no Brasil não é novidade. Méritos da polícia brasileira, por ter desbaratado a quadrilha internacional e provado o que tanto já se escreveu. Os senhores da Fifa, que participam da “Copa das Copas”, voltarão mais desmoralizada para sua sede, na Suíça, diante do escândalo dos ingressos.
Eis a questão:
Por que o governo federal tem que se envolver nessa atividade, cujos cartolas, há muito, são, também, cúmplice da ilegalidade. E o que dizer do Ministério do Esporte, que deveria agir como fiscal dessas instituições, mas delas se aproxima carinhosamente, numa relação suspeita?
Na semana passada, um grupo de cartolas se reuniu com políticos ligados a vários clubes para articular uma audiência com a presidente Dilma. Querem pedir a sanção de um projeto de lei, no qual está em jogo uma dívida fiscal de R$ 5 bilhões, junto ao INSS, Banco Central, Receita Federal, Fundo de Garantia. Com o apoio do Ministério do Esporte, querem legalizar do calote. Isso é um deboche diante do contribuinte em geral.
E assim são as demais modalidades: natação, vôlei, tênis, atletismo, enfim, todas sobreviventes de verbas públicas – Orçamento do Ministério do Esporte, Lei de Incentivo, Lei das Loterias, Banco do Brasil, Caixa, Petrobras, Infraero, Casa da Moeda, Correios, Bolsa Atleta, enfim, injetando grana e mais grana em projetos, clubes e atletas inseridos num modelo corrompido e por isso suspeito, pois não há entrosamento nem diálogo entre os órgãos gestores públicos e privados.
Amanhã escreverei sobre o que essa derrota do futebol significa no projeto de governo, iniciado em 2003.
Enquanto isso…
… há outro Brasil e outras “catástrofes”, como escreveu o jornalista Renato Riella, ao qual peço licença para publicar, encerrando este artigo:
“Querem uma catástrofe verdadeira: se não chover muito, faltará água em São Paulo. Não brinquem com isso em meio a uma eleição”.