sábado, 7 de junho de 2014

Um clima pesado

POR CLAUDIO WEBER ABRAMO*

Blog do Juca Kfouri

Com a aproximação da abertura da Copa, paira no ar uma tensão surda.
Alguém observou outro dia que os carros que circulam nas ruas não carregam bandeirinhas como em outros anos, e que isso talvez se deva ao receio dos motoristas de terem seus veículos depredados por black blocs.
É impossível comprovar se o diagnóstico é acertado ou não. Seja por recear a ação de vândalos, seja porque boa parte das pessoas passou a enxergar a Copa no Brasil como um despropósito, seja por qualquer outra razão, a impressão é que alguma coisa de muito ruim está por vir.
Ao que se possa julgar pelas atitudes visiveis do poder público, nossos mandatários compartilham o receio de algum desastre iminente.
Há uma enorme preocupação com questões de segurança. Mobiliza-se o Exército. Ao mesmo tempo, policiais ameaçam greve, metroviários paralisam o transporte de massa em São Paulo no dia de um amistoso da Seleção.
Uns dias atrás, um fotógrafo morreu dentro de um ônibus, no Rio de Janeiro, cujo motorista havia se desviado de sua rota para levá-lo a um hospital. Morreu porque, embora estivesse defronte ao hospital, seus médicos estavam em greve e não estavam presentes ou, pior ainda, não o atenderam.
Ao que saiba, ninguém foi preso. É improvável que alguém seja demitido e menos provável ainda que os grevistas de branco venham a ter seus registros profissionais cassados por sua corporação.
O Brasil é isso, e cada vez mais se sabe disso. “A pátria de chuteiras” não existe mais. E ainda bem por isso.
Conforme minha mulher me chamou a atenção, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, repetidamente conclama “o povo brasileiro” a mobilizar-se em prol da Copa.
Lembra ela que a última vez que alguém tentou esse tipo de coisa foi quando Fernando Collor convocou a população a sair às ruas vestida de verde-amarelo para lhe prestar apoio.
O resultado foram passeatas por todo o Brasil com as pessoas vestidas de preto, exigindo a sua derrubada.
O cenário iraquiano dos entornos dos estádios (ou “arenas”, como bizarramente passaram a ser chamados), os aeroportos semi-acabados, obras de acesso inacabadas, infraestrutura de telecomunicações precária, o improviso patente em tudo o que cerca a Copa, confirmam o diagnóstico pessimista que se fazia quando se anunciou que o Brasil sediaria o torneio.
A incompetência, a irresponsabilidade e a certeza de roubalheiras de todo tipo praticadas por agentes de governos que vão do municipal ao estadual e ao federal garantiam que a ideia de fazer Copa do mundo no Brasil fracassaria miseravelmente.
A presidente da República empenha-se em promover a Copa às vésperas de sua ocorrência. Por quê? Só pode ser porque os marqueteiros do Planalto devem ter sentido a barra pesar.
Como a presidente assume o papel, os governadores e prefeitos que embarcaram na canoa furada da Copa, sentindo que o climão geral parece mais negro do que verde-amarelo, fingem que a coisa não é com eles.
Há um clima pesado no ar.
Torçamos para que fique só na atmosfera.
*Claudio Weber Abramo é diretor executivo da Transparência Brasil.