quarta-feira, 18 de junho de 2014

O"Capitalismo de cassino" levará ao fim

(publicado originalmente em 19 de Novembro 2000) - Robert Kurz

O fim do capitalismo está definido pela chamada terceira revolução industrial - a revolução tecnológica, eletrônica.


O sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz, autor de Colapso da Modernização e Livro Negro do Capitalismo, expõe algumas das teses da Teoria Crítica Radical e chama de ilusório o crescimento sustentado pelo capital especulativo. Para ele, trata-se de uma bolha cujo estouro levará à derrocada final do capitalismo.
As previsões esperadas em torno do crescimento do capitalismo na última década revelaram-se ilusórias. Foi um crescimento sustentado unicamente pela contínua especulação. Uma bolha que, somente através da admissão de que esta bolha é de fato uma bolha, já é um fator suficiente para que ela possa estourar. E o estouro está próximo, abalando a sociedade capitalista até o seu fundamento. A lógica desse colapso é narrada pelo sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz. Há quase dez anos, Kurz publicou Colapso da Modernização, no qual fez alguns prognósticos sobre o estado de coisas que levará o capitalismo ao seu fim. Para ele, grande parte dos prognósticos ou ocorreram (como a esperança ilusória no crescimento dos países do Sudeste asiático) ou estão em curso (como o processo de declínio do sistema que, segundo ele, começou com a bolha financeira do ``capitalismo de cassino''). Em entrevista exclusiva ao O POVO, Robert Kurz fala desse processo, da repercussão da Teoria Crítica Radical e de suas fragilidades. (Rodrigo de Almeida)

O POVO - A Teoria Crítica Radical dirige sua crítica tanto ao capitalismo quanto ao que o Grupo Krisis chama de marxismo tradicional. A tirar pela reação em Fortaleza de suas palestras, os marxistas tradicionais estão tendo uma reação mais violenta à teoria do que os próprios capitalistas. Qual a sua avaliação sobre isso?
Robert Kurz - (ri) Isso não se passa somente em Fortaleza, mas em toda parte onde a Teoria Crítica Radical está sendo discutida. Porque as instituições capitalistas não se sentem ameaçadas por uma teoria. Os marxismos tradicionais, quando dizemos que cometeram equívocos, que seu momento histórico foi diferente, sentem-se agredidos, ameaçados em sua identidade.

OP - Em Colapso da Modernização o senhor traça algumas prognósticos para o capitalismo. Alguns desses prognósticos, segundo o livro, seriam concretizados num prazo de dez anos. Pela data do livro, 1991, algumas das teses já deveriam estar acontecendo. O senhor revê hoje alguma posição apresentada no livro? Mais: depois de anunciado por diversas vezes anteriormente, a idéia do fim do capitalismo é defendida amplamente pelo Grupo Krisis. O que o leva a crer que, desta vez, o capitalismo será de fato enterrado?
Kurz - Eu não vejo razão porque rever alguns prognósticos. Muitos deles estão em curso. Na verdade, todos. Após a queda do Muro de Berlim, não foi possível integrar positivamente ao mercado os países do Leste da Europa. Muitos liberais pensavam que, nos anos 90, iria se abrir um mercado muito grande no Leste europeu. E isso não aconteceu. Em segundo lugar, os países que serviriam como uma esperança ao capitalismo - os tigres asiáticos - viveram grandes crises econômicas, o que demonstrou que as esperanças que se tinha em torno do crescimento dos países do Sudeste - a ``Era do Pacífico'' - eram muito exageradas. Os liberais imaginavam anos pacíficos na região, o que não ocorreu. Isso prova que os conteúdos materiais esperados e fantasiados para um novo boom centenário da economia real não puderam ser demonstrados a contento.

OP - Mas os países centrais do capitalismo até agora não passaram por grandes crises financeiras.
Kurz - Não, mas cresceu bastante a especulação financeira, sobretudo nos últimos anos, formando um novo mercado. Surgiu o Nasdaq, ao lado do velho conhecido Dow Jones, índice da Bolsa de Nova Iorque, reunindo companhias de tecnologia e Internet. Num piscar de olhos, o Nasdaq desbancou seu irmão bem mais velho. Muitas vezes são empresas com um punhado de funcionários que capitalizam uma riqueza fabulosa em operações dúbias. Isso fez com que, em muitos países e regiões do mundo, o sistema produtor de mercadorias entrasse em colapso, com a capitalização através das bolsas do ``capitalismo de cassino''. Trata-se de um crescimento ilusório, sustentado unicamente pela contínua ascensão do curso das ações tanto no centro especulativo dos Estados Unidos quanto no Sudeste asiático, na Europa e na América Latina. Mas a admissão de que essa bolha é de fato uma bolha seria um fator suficiente para que ela estourasse.

OP - Será o estouro dessa bomba que significará a derrocada final do capitalismo?
Kurz - Essa bolha não poderá durar, e quando estourar abalará a sociedade capitalista até o seu fundamento. Mas é um episódio dentro de um processo de crises que vai durar por muito mais tempo. O fim do capitalismo está definido pela chamada terceira revolução industrial - a revolução tecnológica, eletrônica. Uma grande quantidade de força de trabalho é expulsada da produção industrial, que não consegue reabsorver. Não há um processo de compensação, mas um processo de expulsão contínua. A acumulação de capital não é outra coisa que a transformação do trabalho em valor, do trabalho em dinheiro. Por isso, a expulsão da força de trabalho nessa quantidade, nessas dimensões, não encontra limites. Eis a causa de, hoje em dia, as condições da economia real serem cada vez menores às condições do capital fictício, da especulação.

OP - A concentração de riquezas continuará aumentando?
Kurz - Esse é um outro lado da crise. Quanto mais se acumula capital, maior é o processo de concentração em função da existência de companhias cada vez maiores. Na periferia do capitalismo, em países como o Brasil, há um processo um pouco diferente. Os países periféricos não têm a capacidade, não têm o capital necessário para investir em novas tecnologias de modo amplo. Isso significa que eles caem em qualquer concorrência mundial.

OP - O senhor e outros representantes da Teoria Crítica Radical desenvolvem uma crítica ao trabalho, assim como a outra categorias do capitalismo, como dinheiro, democracia e Estado. As pessoas têm reagido mal a essa crítica. Como pensar, por exemplo, uma sociedade sem democracia, sem dinheiro? O que significa, de fato, essa superação?
Kurz - Significa a perspectiva de criar uma nova forma de sociabilidade, uma nova forma de organização social que pode lidar racionalmente com o potencial de riquezas que o capitalismo criou historicamente. É encontrar uma sociabilidade que evite que esse potencial se converta em força destrutiva, em vez de forças produtivas.

OP - Mas como seria essa nova sociabilidade?
Kurz - Uma sociabilidade em que as pessoas discutam, se comuniquem diretamente sobre suas relações sociais, econômicas, de produção, todas sem serem dominadas por um princípio abstrato. Estamos vivendo em uma sociedade que passa por uma mediação cega. O problema com a democracia vem daí. A sociedade pode discutir, pode participar, mas a base já está sempre definida. A base fundamental é um processo cego. As discussões são travadas, mas são alternativas postas sobre essa base já estabelecida. Antes de qualquer decisão, como sujeitos capitalistas que somos, já nos situamos na forma do capitalismo de concorrência. Essa sociabilidade viria para superar esse processo destrutivo, catastrófico que estamos vivendo.

OP - Para tanto, é preciso uma mudança cultural de bastante intensidade. Como é possível alcançar essa mudança, quando se tem por exemplo mídias de massa completamente favoráveis às categorias do capitalismo?
Kurz - Tentou-se, no passado, criar-se uma contracultura. Seria necessário repensá-la novamente, para analisar esse sistema criticamente. Também seria a questão de criar uma mídia alternativa. Há um processo de assimilação cultural muito profundo. Precisamos reaprender a discutir livremente esses assuntos. Para isso, creio que seria necessário criar meios de comunicação para tanto.

OP - Mas qualquer meio se fundamenta necessariamente no capital. Portanto, se fundamenta na defesa de categorias capitalistas.
Kurz - Não é necessário superdimensionar esses meios. Por exemplo, a Internet pode ser uma forma de comunicação alternativa para fazermos discussões contrárias, em oposição ao capitalismo. Inclusive para organizar formas de luta. Não são precisos meios grandes. Há outras possibilidades.

OP - Não há no pensamento do grupo Krisis uma ênfase excessiva à economia? Os aspectos culturais não estão sendo esquecidos, assim como a saída prática para esse enfrentarmos esse colapso?
Kurz - Esta é, talvez, uma debilidade, uma fraqueza da Teoria Crítica Radical. Agora, teremos cada vez mais uma cultura economizada. A economia está cada vez mais dominando todos os setores da sociedade, incluindo a cultura. Por isso é importante analisar a forma com que a economia domina esses setores. Não estamos, assim, reproduzindo categorias econômicas, mas criticando esse processo real por que passa a sociedade. Quanto à prática, a teoria não pode esboçar um programa concreto para oferecer aos movimentos sociais.

OP - Embora satanizado, Karl Marx tem sempre ``renascido''. Por que tanta fixação? Além disso, porque Marx desperta tanta paixão cega, formando, para alguns, não uma teoria marxista mas uma ``teologia marxista''? Não há uma mistificação excessiva ao pensamento de Marx, comprovada até mesmo pela crítica que vocês receberam em Fortaleza por pensar uma renovação do marxismo?
Kurz - Os movimentos de esquerda tomaram somente uma parte da teoria de Marx. Um aspecto da teoria, que analisa o processo de modernização capitalista. Enquanto isso, a crítica às categorias fundamentais do capitalismo foram deixadas de lado. Há quase uma mistificação, como um pensamento religioso, deixando de lado aspectos fundamentais de uma teoria. Caso não se possa esboçar uma crítica radical das categorias capitalistas será inevitável acabar se engajando na auto-administração da miséria. Sem isso, a crítica social vira uma espécie de Buda, com o qual não é necessário ver a contradição.

OP - Em entrevista recente à revista Carta Capital, o senhor disse que para listar os crimes do capitalismo ocidental, nem cem volumes seriam suficientes. Quais foram os crimes do capitalismo mais importantes, mais severos com a sociedade capitalista?
Kurz - A palavra crime foi usada de uma forma metafórica (ri). O mais preciso seria dizer que o capitalismo é uma sociedade que se desenvolveu em um processo histórico por meio de catástrofes. Nunca houve, por exemplo, tantas guerras concentradas num só período como na história da modernização deste século. E nunca se viu o fato de tantas pessoas terem que viver na miséria. Sem catástrofes naturais. Somente como resultado das organizações sociais nas quais está fundado este sistema.
 
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=18751