sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Brasil e a colheita da morte

Mauro Santayana 

 
(Hoje em Dia) - O Mapa da Violência 2014, feito pela FLACSO _ (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) sob a coordenação do sociólogo Júlio Jacob Weilselfisz, nos traz um dado estarrecedor.

Apesar da melhora da renda e do emprego no Brasil nos últimos anos, a morte tem colhido, por aqui, regadas a sangue, safras cada vez maiores.

O número de assassinatos triplicou nos últimos 34 anos, alcançando um recorde de 56.337 homicídios em 2012 – o último dado disponível – cifra superior ao de vítimas fatais da grande maioria dos conflitos que se travam, hoje, no mundo.

Com 29 mortes intencionais por 100.000 habitantes, matamos menos que Honduras, que, com 94, é o país que mais mata no mundo e quase o mesmo que o México. Mas muito menos que Cuba, Uruguai ou Argentina, e três vezes mais que a média de 10 por 100.000, considerada razoável, pela Organização Mundial da Saúde.

A questão é que, no Brasil, diante desses números, as pessoas tendem a achar que o problema da violência tem que ser tratado com mais violência.  

Pergunte-se a qualquer cidadão, em um espaço de comentários, nos portais, ou nas redes sociais, qual é a solução para diminuir o número de vítimas de homicídio no Brasil, e ele, provavelmente, vai citar, em sua resposta, primeiro a pena de morte, e depois, a redução da idade penal, o aumento das penas e sentenças, e a tipificação de mais crimes como crimes hediondos, como a melhor resposta para essa situação.

A pena de morte, já existe, na prática, no Brasil. Policiais civis e militares, segundo o Sétimo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, matam, em média, quatro vezes mais civis que os dos Estados Unidos, por exemplo. Mais que a polícia do México, um dos países mais violentos do mundo, e mais do que a da Venezuela, que tem uma taxa de homicídios que é quase o dobro que a do Brasil.

Prender a torto e a direito, sem julgamento e sem assistência ou defesa, tratando como animal o suspeito, também não vai resolver o problema.

Segundo o Ministério da Justiça, a população carcerária aumentou 509% entre 1990 e 2012, para um crescimento de 30% da população. O número de presos sextuplicou, enquanto a população aumentou em um terço, e, hoje, com quase 600.000 presos o Brasil tem a quarta população penitenciária do mundo, 40% deles em situação provisória, sem ter culpa formada ou ter comparecido diante de um juiz ou tribunal, ainda.

Isso quer dizer que, longe de prender pouco, no Brasil prende-se – e mata-se – muito. Prende-se mal, prende-se sem provas, prendem-se os mais pobres, há pesadas sentenças para crimes leves, e misturam-se, na cadeia, traficantes e homicidas, e ladrões de galinha.    
 
Enquanto isso, a irresponsável manipulação da opinião pública, por aqueles que vivem de explorar o medo, leva cada vez mais cidadãos e cada vez mais policiais à morte.  Antes que se fechem atrás de nós os portais do inferno, é hora de mudar de rumo.