terça-feira, 17 de junho de 2014

Inventário da Ganância

 por Gabriel Priolli, em seu blog


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O patrimonalismo das elites, a sua obsessão em produzir e concentrar riqueza privada, e também de apoderar-se dos recursos do Estado, fazendo-o trabalhar em seu favor, é uma velha tradição latino-americana. É um traço de absoluta identidade entre os países da região, acima de quaisquer diferenças históricas ou culturais.

O melhor registro do delírio
patrimonialista latino-americano, com o seu inevitável corolário de crimes e desgraças, é feito muito mais pela literatura do que pelo jornalismo, até porque este é uma das “jóias da coroa” e reluz à frente das demais peças do tesouro das elites. Mas, entre os grandes escritores da região, dificilmente algum terá descrito o patrimonialismo com tanto sarcasmo quanto Gabriel Garcia Márquez, neste trecho alegórico de um de seus livros mais conhecidos.
A Mamãe Grande é herdeira de uma dinastia de coronéis colombianos e está à beira da morte. Garcia Márquez narra os seus últimos momentos, que ela gasta, não por acaso, no arrolamento de seus bens. O testamento da matriarca é o legado que todas as elites tradicionais do continente entendem também como seu, nesta época de mudanças e avanços que elas tanto lutam para impedir.

O TESTAMENTO DA MAMÃE GRANDE

los-funerales-de-la-mama-grande-9-768x1024“Mamãe Grande precisou de três horas para enumerar seus assuntos terrenos. No abafamento do quarto, a voz da moribundda parecia dignificar em seu lugar cada coisa enumerada. Quando estampou sua assinatura trêmula, e sob ela as testemunhas estamparam as suas, um temor secreto sacudiu o coração da multidão que começava a concentrar-se diante da casa, à sombra das amendoeiras empoeiradas.
“Só faltava então o relato minucioso dos bens morais. Fazendo um esforço supremo – o mesmo que fizeram seus antepassados antes de morrer para assegurar o predomínio de sua espécie – Mamãe Grande ergueu-se sobre as nádegas monumentais, e com voz dominante e sincera, abandonada à sua memória, ditou ao notário a lista de seu patrimônio invisível:
“A riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades do cidadão, o primeiro magistrado, a segunda instância, a terceira discussão, as cartas de recomendação, as contingências históricas, as eleições livres, as rainhas de beleza, os discursos transcendentais, as grandiosas manifestações, as distintas senhoritas, os corretos cavalheiros, os pundonorosos militares, sua senhoria ilustríssima, a corte suprema de justiça, os artigos de importação proibida, as damas liberais, o problema da carne, a pureza da linguagem, os exemplos para o mundo, a ordem jurídica, a imprensa livre mas responsável, a Atenas sul-americana, a opinião pública, as lições democráticas, a moral cristã, a escassez de divisas, o direito de asilo, o perigo comunista, a nave do estado, a carestia de vida, as tradições republicanas, as classes desfavorecidas, as mensagens de adesão.
“Não chegou a terminar. A trabalhosa enumeração abreviou seu último suspiro. Afogando-se no mare magnum de fórmulas abstratas que durante dois séculos constituíram a justificação moral do poderio da família, Mamãe Grande emitiu um sonoro arroto e expirou.”
(Extraído de Os Funerais da Mamãe Grande, Gabriel Garcia Márquez, Editora Record, 11a. edição, pg. 158-159. Fontes das imagens: http://zip.net/bmnDdjhttp://zip.net/bgnDlH)