terça-feira, 24 de junho de 2014

As veias unidas da América Latina


                           
Uruguai"Não se pode comprar o vento
Não se pode comprar o sol
Não se pode comprar a chuva
Não se pode comprar o calor
Não se pode comprar as nuvens
Não se pode comprar as cores
Não se pode comprar minha'legria
Não se pode comprar minhas dores"

O futebol tem, em seus momentos mais extremos, esse dom de fazer com quem apaguemos toda a realidade e a transformemos ao nosso bem querer. Sendo a Copa do Mundo um desses extremos que esperamos ansiosos, a disputa no Brasil tem dado a todos os americanos – e somos americanos todos, do Alaska à Patagônia – a chance de devolução. Não de pegar de volta o ouro e a floresta roubada, nem mesmo os antepassados ou as construções históricas. Isso, claro, nunca voltará. Mas damos o troco no que podemos.

Quando Eduardo Galeano, ainda na década de 1970, escreveu que as veias da América Latina estavam abertas, talvez tenha usado de eufemismo. Elas estavam escancaradas mesmo. Por europeus, depois por norte-americanos. Sem chance alguma de que fossem fechadas ou pelo menos cicatrizadas. O futebol, em 2014, tem dado conta disso. Na Copa do Mundo o que se desenha antes mesmo do final da primeira fase é uma Copa das Américas. E nisso os resultados são o de menos.

O sentimento começou junto com a bola rolando. Timidamente o hino brasileiro era cantado à capela na estreia contra a Croácia. Vitória. No dia seguinte, nos emocionamos com chilenos invadindo o Brasil e cantando seu hino também. A Copa das Américas havia começado ali. Porque por mais que os resultados não fossem favoráveis – e eles estão sendo – o Mundial estava reforçando algo perdido no tempo-espaço desde Colombo: o sentimento de unidade que tanto faltou à América Latina no último meio milênio (sim, é muito tempo).

Não deixamos de lado a rivalidade com os argentinos e nem eles nos esqueceram. Ainda bem. Mas juntos comemoramos cada gol chileno capaz de mandar para casa a Espanha. Vibramos com cada drible colombiano em uma afirmação de um futebol extremamente alegre e ofensivo. Torcemos por milagres que Costa Rica e Uruguai operaram e explodimos com gols mexicanos da classificação. Juntos vibramos por uma América que, unida, avançou sem se importar com adversários.

Alguns muitos anos depois, talvez pela primeira vez nessa história longa, nos sentimos donos de casa. Aqui vocês não mandam. Aqui é nosso. Nosso como nunca vocês deixaram ser. Divisão mundial? Não é para tanto. Apenas troco, se é que podemos dizer que uma moeda em forma de bola pode devolver todo esse tempo de exploração. Mas, é claro, o futebol em seus extremos nos deixa transformar a realidade. Isso é maior do que qualquer vitória.

Pode ser que a final da Copa seja europeia, sei lá, o futebol é mestre em aprontar dessas. Mas cada vitória já valeu a pena em sua missão de mostrar aos latino-americanos que só depende deles uma união necessária. Em uma massagem de ego necessária, cada grito de gol cicatriza um pouco nossas veias abertas.

Fechar elas nunca irão. E daí? Aqui se respira luta.
publicado em esporte interativo
https://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/as-veias-unidas-da-am%C3%A9rica-latina-184325713.html