domingo, 24 de março de 2013

Cadeira de Bolívar fica vaga

 
A influência de Chávez na América Latina será difícil de substituir sem os milhões de barris de petróleo que o mandatário dividiu no continente.

FRANCISCO PEREGIL
Hugo Chávez tinha carisma entre as pessoas com carisma, conhecia a ciência e a arte do abraço, sabia acolher as pessoas por um segundo e fazer com que se sentissem únicas, atendidas, talvez amadas, ainda que algumas delas fossem chefes de Estados hábeis também na ciência dos abraços. Mas Hugo Chávez tinha também petróleo. Com essas duas armas conquistou o coração de boa parte da América Latina. Jamais teria alcançado a influência que teve se não tivesse feito uso, muito generoso, das reservas de seu país. Mas seria um erro pensar que essa influência se deve somente pelo petróleo.
É certo que durante muitos anos a Venezuela forneceu 100.000 barris de petróleo diários para Cuba a um preço diferenciado e que 60% da energia consumida pelos cubanos provem da Venezuela. Também é certo, como se lembraram Reuters e BBC Mundo, que entre 2004 e 2007, quando a Argentina de Néstor Kirchner não conseguia aceder aos mercados financeiros internacionais, Venezuela comprou bônus desse país por aproximadamente 4 milhões de euros .A conexão com a Argentina chegou a tal ponto que em 2007 explodiu o que se conheceu como o escândalo da mala: o empresário venezuelano Guido Alejandro Antonini Wilson, conhecido como El Gordo, foi descoberto pelo serviços alfandegários da Argentina quando tentava entrar no país, depois de chegar de uma viagem oficial, uma mala com 790.000 dólares, mais de meio milhão de euros. O FBI apontou que o objetivo desse dinheiro era apoiar a campanha de Cristina Fernández para presidente na Argentina naquele ano. Depois de seis anos, o mistério da mala continua sem resolver, mas as relações entre Argentina e Venezuela não se ressentiram.

O poder de seu talão de cheques conseguia admiradores de forma instantânea. Chávez também socorreu o Uruguai no tempo das vacas magras. O próprio presidente uruguaio José, Pepe, Mujica explicou em dezembro: “ Quando tivemos um banco dissolvido o que podia provocar-nos retiradas, ele nos deu uma mão. Abriu-nos mercados. Pergunte a Conaprole e Calcar – empresas lácteas uruguaias – como estão na Venezuela. Isso não caiu do céu, essa abertura de mercado foi clara vontade política” Mujica já o definiu e ontem ele voltou a fazê-lo como o “governante mais generoso que conheci”.
Rafael Correa no Equador e Evo Morales na Bolívia aplicaram rapidamente a terminologia revolucionária de Chávez, seus insultos dirigidos às políticas do Fundo Monetário Internacional, sua reprovação a essas políticas. Seu enfrentamento frontal como os meios de comunicação mais críticos, seu controle sobre o poder judicial – durante seus 14 anos como presidente,o Tribunal Supremo nunca falhou em contra o governo— e sobretudo, sua técnica de polarizar a sociedade, de dividi-la com um sinal entre revolucionários ou - coloque o insulto que preferir— pitiyanquis, esquálidos, burgueses, oligarcas… Tudo isso também se estendeu pela América Latina à medida que ganhava as eleições no seu próprio país.
E também se estenderam seus planos sociais, os planos que chegava aos mais pobres. Sempre, com a ajuda do petróleo. Já no final de seus dias, entre tanto carisma, tanto "amor revolucionário" e tanto petróleo conseguiu o que há anos ele tentava: a incorporação da Venezuela no Mercosul. Aproveitou a expulsão temporária do Paraguai, em virtude da destituição repentina de Fernando Lugo, para que Argentina, Brasil e Uruguai o colocassem pela porta de trás no Mercosul.
Agora, qualquer líder latino-americano que pretenda exercer a mesma influência que Chávez teve sobre seus pares, deverá contar não somente com carisma e simpatía, mas com uma generosidade petroleira que nem todo mundo poderá se permitir.

Tradução exclusiva para o Controvérsia:Maria Teresa Cabezas Urbano